sexta-feira, 4 de setembro de 2026
Saude

APRENDER A DIZER “NÃO”

APRENDER A DIZER “NÃO” QUANDO O LIMITE SE TRANSFORMA EM UM “SIM” PARA SI MESMO.

APRENDER A DIZER “NÃO”

APRENDER A DIZER “NÃO” QUANDO O LIMITE SE TRANSFORMA EM UM “SIM” PARA SI MESMO. Aprender a dizer “não” pode ser também aprender a escutar os próprios desejos, limites e necessidades, sem viver aprisionado à aprovação do outro. Na perspectiva psicanalítica, reconhecer essa possibilidade é um caminho de elaboração, autonomia e reencontro consigo mesmo. Há palavras que parecem pequenas, mas carregam uma história inteira. “Não” é uma delas. Para algumas pessoas, dizer não pode provocar culpa, medo, ansiedade e até a sensação de estar fazendo algo errado. Há quem consiga dizer não para quase tudo, mas há também aqueles que passam grande parte da vida dizendo “sim” enquanto, silenciosamente, desejam dizer exatamente o contrário. Sim para não decepcionar. Sim para não perder. Sim para não provocar conflitos. Sim para continuar sendo amado. Sim para corresponder às expectativas. Até que, em algum momento, uma pergunta pode surgir: E eu? Onde estou em meio a tantos “sins” que ofereço aos outros? A psicanálise nos permite olhar para essa questão para além de uma simples dificuldade comportamental. A dificuldade de estabelecer limites pode estar relacionada à história do sujeito, às suas experiências de vínculo, às formas pelas quais aprendeu a buscar amor e reconhecimento e aos conflitos inconscientes que continuam produzindo efeitos no presente. Freud nos ensinou que o sujeito não é senhor absoluto de sua própria casa. O inconsciente participa de nossas escolhas, nossos desejos, nossas repetições e também de nossos conflitos. Por isso, talvez a pergunta não seja apenas: “Por que eu não consigo dizer não?” Mas: “O que significa, para mim, dizer não?” QUANDO O “SIM” SE TORNA UMA FORMA DE DESAPARECER Algumas pessoas aprenderam muito cedo que agradar era uma maneira de garantir afeto. Aprenderam a cuidar dos outros antes de cuidar de si. A evitar conflitos. A suportar. A permanecer. A não incomodar. A não contrariar. A serem fortes. E, pouco a pouco, podem construir uma forma de existência baseada na adaptação às necessidades do outro. Winnicott nos oferece uma importante contribuição para pensar essa questão ao discutir o verdadeiro self e o falso self. Em determinadas condições, a adaptação excessiva pode assumir uma função defensiva diante das exigências do ambiente. Winnicott observa que, no funcionamento patológico, o falso self pode lidar com a realidade externa por meio da complacência, protegendo o verdadeiro self. Isso nos ajuda a compreender por que, algumas vezes, a pessoa parece estar sempre disponível, sempre concordando, sempre fazendo aquilo que esperam dela — mas, internamente, sente-se distante de si mesma. Não se trata simplesmente de “falta de personalidade”. Pode existir uma história por trás daquele comportamento. Pode existir uma criança que aprendeu que ser aceita significava adaptar-se. Pode existir um sujeito que descobriu muito cedo que era mais seguro agradar do que contrariar. E talvez seja justamente aí que o processo analítico possa começar a produzir deslocamentos. O DEPOIMENTO DE JESSICA: UMA HISTÓRIA DE RECOMEÇO O relato de Jessica é um exemplo singular de como uma história de vida pode ser revisitada quando encontra um espaço de escuta. Seu depoimento é publicado com sua autorização. “Quando comecei a me escutar, comecei a me escolher.” “Eu me chamo Jessica, tenho 35 anos e muitos capítulos já vividos. Cheguei à psicanálise em busca de respostas para algumas travas que eu sentia dentro de mim. Eu tinha um sonho de infância: conquistar minha habilitação. Mas percebi que, para além desse sonho, existiam medos, inseguranças e dificuldades que eu precisava compreender. Foi então que comecei meu processo de análise. Ao longo das sessões, fui percebendo que minha história tinha muito mais a dizer do que aquilo que eu conseguia enxergar sozinha.Desde pequena, aprendi a buscar minha independência. Aos 7 anos, já trabalhava e descobria a satisfação de conquistar meu próprio dinheiro. Passei por diferentes experiências, lugares e pessoas e, muito cedo, comecei a perceber que queria construir uma vida diferente daquela que conhecia. Na adolescência, vieram os conflitos, os relacionamentos difíceis, as escolhas que hoje consigo olhar de outra maneira e momentos em que perdi de vista o meu próprio valor. Também vivi períodos muito dolorosos. Mas continuei. E hoje percebo que essa sempre foi uma característica minha: mesmo quando tudo parecia difícil, alguma coisa dentro de mim continuava buscando um caminho. Em 2014, fui para o Rio de Janeiro para tentar reconstruir minha vida. Foi uma decisão difícil. Precisei deixar minha filha por um período e enfrentar muitas incertezas. Depois, a vida foi se reorganizando. Conheci meu atual esposo, construímos nossa história juntos e, em 2015, voltei para buscar minha filha. Vieram novas batalhas e também muitas vitórias. Hoje tenho minha casa. Ainda estou pagando, mas tenho. Saí de um trabalho que estava me fazendo mal e comecei a compreender que eu também tinha o direito de escolher o que fazia sentido para mim. Foi nesse processo que a psicanálise passou a ocupar um lugar ainda mais importante na minha vida. Quando cheguei à análise, eu estava tão perdida que já não sabia mais o que sonhar. Tinha desejos que pareciam impossíveis e vontades que eu mesma havia aprendido a colocar de lado. Pouco a pouco, comecei a me escutar. E, quando comecei a me escutar, comecei também a me conhecer. Passei a olhar para meus medos, minhas escolhas, minhas repetições e minhas dificuldades de uma forma diferente. Entendi que mudar não significa apagar o passado. Significa poder olhar para a própria história e construir novas possibilidades a partir dela. Hoje estou aprendendo a dizer não. E descobri que um simples ‘não’ pode carregar um enorme significado. Dizer não para aquilo que me machuca. Não para aquilo que ultrapassa meus limites. Não para aquilo que já não faz sentido. E, muitas vezes, cada ‘não’ se transforma em um grande SIM para mim mesma. Sim para os meus desejos. Sim para os meus sonhos. Sim para os meus limites. Sim para a mulher que estou me tornando. Ainda tenho medos. Ainda tenho dúvidas. Ainda existem dias difíceis. Mas hoje eu me vejo de outra maneira. Não como alguém que precisa ter todas as respostas, mas como alguém capaz de continuar caminhando, mesmo quando não sabe exatamente o que encontrará pela frente. Aquela menina que, aos 7 anos, já desejava sua independência cresceu. Ela caiu. Levantou. Recomeçou. E hoje está aprendendo algo ainda maior: está aprendendo a escolher a si mesma. A psicanálise não fez desaparecer as dificuldades da minha vida. Ela me ajudou a olhar para mim diante delas. Hoje sigo vivendo um dia de cada vez. Com mais consciência. Com mais coragem. Com mais liberdade. E, principalmente, com uma certeza que durante muito tempo eu havia perdido: eu ainda tenho sonhos. E agora sei que posso caminhar em direção a eles.” ENTRE O DESEJO DO OUTRO E O PRÓPRIO DESEJOO depoimento de Jessica nos leva a uma questão central da psicanálise: o que acontece quando a vida do sujeito é construída excessivamente em função do desejo do outro? Lacan formula uma de suas conhecidas proposições ao afirmar que “o desejo do homem é o desejo do Outro”. A questão não significa simplesmente que desejamos aquilo que outra pessoa deseja. Ela aponta para o fato de que nosso desejo se constitui no campo do Outro, no campo da linguagem, dos vínculos, das expectativas e dos significantes que nos antecedem. Por isso, uma das questões que podem surgir no percurso de uma análise é: “O que eu desejo, para além daquilo que esperam de mim?” Não é uma pergunta simples. E talvez não precise ser. A psicanálise não tem como objetivo ensinar alguém a dizer “não” como se oferecesse uma técnica de comportamento. O que ela possibilita é que o sujeito possa falar sobre sua história, suas escolhas, seus medos e suas repetições, até que algo de sua posição subjetiva possa ser interrogado. É pela palavra que aquilo que estava sem nome pode começar a encontrar significação. A CULPA DE DIZER NÃO Existe ainda outro aspecto importante: a culpa. Muitas pessoas conseguem finalmente estabelecer um limite, mas logo depois se sentem culpadas. “Será que fui egoísta?” “Será que magoei?” “Será que deveria ter aceitado?” A culpa pode estar relacionada às exigências internas que Freud desenvolveu ao pensar o super eu. A vida psíquica não é constituída apenas por desejos; também somos atravessados por proibições, ideais, exigências e cobranças que podem se tornar extremamente severas. Assim, algumas pessoas carregam dentro de si uma espécie de mandato: “Você precisa agradar.” “Você precisa ser forte.” “Você não pode decepcionar.” “Você precisa cuidar de todos.” Quando o sujeito começa a colocar limites, pode sentir que está violando uma regra muito antiga. É por isso que o processo de mudança nem sempre vem acompanhado imediatamente de alívio. Às vezes, antes da liberdade vem a culpa. Antes da segurança vem a dúvida. Antes do “eu posso escolher” pode aparecer o medo. E tudo isso também pode ser escutado. DIZER NÃO NÃO É DEIXAR DE AMAR Aprender a dizer não não significa tornar-se indiferente. Não significa deixar de cuidar. Não significa abandonar as pessoas. Significa compreender que uma relação pode existir mesmo quando há diferença. Eu posso amar alguém e discordar. Posso respeitar alguém e colocar um limite. Posso cuidar de alguém sem abandonar a mim mesma. Posso dizer “não” sem transformar o outro em inimigo. Freud, ao refletir sobre a vida em sociedade, mostra que a convivência humana envolve renúncias e limites. Em O mal-estar na civilização, ele relaciona a organização da vida coletiva à necessidade de regular as forças pulsionais e reconhece que a civilização impõe sacrifícios ao indivíduo. Mas há uma diferença importante entre viver em sociedade e viver permanentemente submetido ao desejo alheio. Limite não precisa ser submissão. E liberdade não precisa ser ausência de vínculo. QUANDO O “NÃO” SE TORNA UM “SIM” Talvez seja esse o ponto mais bonito do relato de Jessica.O “não” que ela está aprendendo a pronunciar não aparece como uma negação da vida. Ao contrário. Ele aparece como possibilidade de vida. Não para aquilo que a machuca. Sim para aquilo que deseja. Não para aquilo que ultrapassa seus limites. Sim para sua própria existência. Não para a necessidade de agradar o tempo todo. Sim para a possibilidade de escolher. É nesse sentido que aprender a dizer “não” pode ser compreendido como uma experiência de subjetivação: o sujeito começa a reconhecer que sua vida não precisa ser construída apenas em resposta ao outro. A análise não promete uma existência sem conflitos. Não elimina o passado. Não oferece uma fórmula para nunca mais sofrer. Ela possibilita algo mais delicado e profundo: um espaço para que o sujeito possa escutar aquilo que sua própria história tem a dizer. E talvez, nessa escuta, surja a possibilidade de uma nova pergunta: “O que eu quero fazer com a história que tenho?” Não podemos escolher tudo o que nos aconteceu. Mas podemos, ao longo de um processo de elaboração, construir novas maneiras de nos posicionarmos diante daquilo que vivemos. PARA ALÉM DO “SIM” E DO “NÃO” No fundo, talvez a questão não seja aprender simplesmente a dizer “não”. É aprender a poder escolher. Porque um “sim” também pode ser profundamente verdadeiro quando nasce do desejo. O problema não é dizer sim. O problema é quando já não conseguimos escolher entre o sim e o não. Quando o medo escolhe por nós. Quando a culpa escolhe por nós. Quando a necessidade de aprovação escolhe por nós. Quando o desejo do outro ocupa todo o espaço e já não conseguimos ouvir a nossa própria voz. Por isso, o verdadeiro movimento talvez seja este: não aprender a dizer “não” para todos, mas aprender a não dizer “sim” para tudo aquilo que nos faz desaparecer. A história de Jessica nos lembra que recomeçar não significa apagar quem fomos. É poder olhar para a própria trajetória com outros olhos. É reconhecer as marcas sem permitir que elas determinem todo o futuro. É perceber que aquela menina que um dia sonhou com independência ainda existe — agora em uma mulher que começa a reconhecer o próprio valor e a sustentar seus desejos. E talvez essa seja uma das maiores possibilidades que uma análise pode abrir: não transformar alguém em outra pessoa, mas permitir que ela possa se aproximar, cada vez mais, de quem é. Um convite à reflexão Talvez você também tenha aprendido a dizer muitos “sins”. Talvez tenha confundido amor com sacrifício. Talvez tenha confundido cuidado com abandono de si. Talvez ainda sinta culpa quando coloca limites. Então, talvez valha a pena perguntar: Quantas vezes você disse “sim” ao outro enquanto, silenciosamente, dizia “não” a si mesmo? E, se pudesse escutar hoje aquilo que ficou tanto tempo silenciado: o que você gostaria de dizer? Às vezes, a transformação começa com uma palavra. Às vezes, com uma pergunta. Às vezes, com um limite. E, algumas vezes, com a coragem de dizer: “Não. Isso não é mais para mim.” Para, finalmente, poder dizer: “Sim. Eu também escolho a mim.”

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Autora: Cristina Moreira psicanalise.cristinamoreira@gmail.com https://instagram.com/psicanalisecomcristina Blog: https://psicanalisecomcristina.com/

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